Poster – 09

Título

Síndrome de Rendu-Osler: confirmação molecular com identificação de 3 novas mutações

Autores

Orfão 1, C. Silva Pinto 2, T. Fidalgo 2, P. Martinho 2, A.C. Oliveira 2, G. Caetano 3, T. Sevivas 1, A. Esesumaga 1, R. Salvado 1, J. Tomaz 1 e M.L. Ribeiro 2
1 – Serviço de Sangue e Medicina Transfusional, CHUC, EPE, 2 – Laboratório de Hematologia Molecular, CHUC, EPE, 3 – Serviço de Hematologia, Hospital de Faro, CHAlgarve, E.P.E.

Introdução: Telangiectasia Hemorrágica Hereditária (THH), ou síndrome de Rendu-Osler-Weber, é uma patologia vascular autossómica dominante, caracterizada por angiodisplasia localizada com manifestações hemorrágicas severas e recorrentes. A prevalência é de 1-5000/8000, apesar de apresentar maior incidência em algumas regiões de França, Dinamarca, Caraíbas e Antilhas Holandesas. A penetrância da doença é dependente da idade. A severidade das manifestações e a idade de apresentação variam, mesmo entre membros da mesma família, dificultando o diagnóstico. O diagnóstico clínico baseia-se nos Critérios de Curaçau (epistáxis espontânea e recorrente, telangiectasias mucocutâneas, envolvimento visceral e familiar em primeiro grau com doença), que estabelecem um diagnóstico definitivo na presença de 3 ou 4 critérios e suspeito na presença de dois. Mutações em múltiplos genes podem desencadear THH, estando identificados dois genes patológicos (presentes em 85% dos diagnósticos): genes ENG (THH1) e ACVRL1 (THH2), que codificam recetores tipo III e tipo I (Endoglina e Activina receptor-like cinase tipo I, respetivamente) envolvidos na via de sinalização do TGF-β (Factor de Crescimento Transformante tipo b) responsável por inúmeros processos celulares.

Objetivo: Identificar e caracterizar as mutações genéticas presentes em doentes com suspeita clínica de THH.

Material e Métodos: Foram estudados 18 doentes, não relacionados, com suspeita clínica ou diagnóstico clínico de THH de acordo com os critérios clínicos estabelecidos: 12 mulheres [mediana de idades: 59 anos (17-67)] e 6 homens [mediana de idades: 43 anos (6-66)]. Os genes ENG e ACVRL1 foram estudados PCR/sequenciação Sanger (região promotora, exões, limites exão-intrão e regiões 5’ e 3’-UTR) e MLPA para pesquisa de grandes delecções/inserções. De acordo com guidelines internacionais, as variantes identificadas foram analisadas em 5 programas in silico: se “deleterious” em menos de 3 (score<3), consideraram-se variantes benignas, se score≥3, variantes patogénicas. As variantes não referenciadas nas bases de dados internacionais (HGMD, arup/database/HHT, ExAC, 1000genomes) foram consideradas “novas”.

Resultados: Foram identificadas variantes patogénicas em heterozigotia em 10 doentes. No ENG foram identificadas 3, todas distintas e 2 não descritas com efeito patogénico. No ACVRL1 foram identificadas 7, 5 delas distintas e uma não descrita com efeito patogénico (Tabela 1). Em um doente foi identificada apenas uma variante já descrita com efeito possivelmente “benigno” no ENG. A maioria das variantes patogénicas identificadas são pequenas deleções e inserções. Em 7 doentes não foram identificadas alterações nos ENG e ACVRL1.

Discussão: Neste estudo, foi confirmado o diagnóstico molecular de THH em 11 doentes, dos quais 10 são portadores de variantes patogénicas. Neste grupo, 3 mutações não se encontram referenciadas nas bases de dados internacionais e encontram-se, no nosso estudo, associadas a clínica hemorrágica severa (anemia com necessidade transfusional e tratamento com ferro). Num doente, a única alteração identificada (ENG: c.1844 C>T, p. Ser615Leu) encontra-se classificada como “likely benign” nas bases de dados internacionais, com apresentação de clínica hemorrágica menos severa. Em 7 doentes com suspeita clínica de THH, não foram identificadas alterações nos genes estudados.

Conclusão: A THH continua efetivamente como uma doença sub-diagnosticada que, apesar de ser considerada benigna, apresenta um importante impacto na qualidade de vida e atividade profissional dos doentes, pelo que um diagnóstico inequívoco e atempado justificaria a implementação precoce de medidas terapêuticas adequadas que aliviariam o curso natural da doença. No estudo realizado foram identificadas 3 variantes patogénicas novas que confirmam o diagnóstico clínico, associadas a clínica hemorrágica severa. Com vista ao aprofundar do estudo, será objetivo o aumento da amostra e a alargar o estudo molecular a outros genes como o SMAD4.

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