SÁBADO, 24 NOVEMBRO

Mesa Redonda – ANEMIA – Paradigma da abordagem multidisciplinar

Anemia na Reumatologia

12:30 – 13:00

Moderadores

António Robalo Nunes e Ana Farinha

Palestrante

Augusto Faustino

A ocorrência de anemia num doente reumático, poderá ter signicados muito distintos, consoante a sua doença reumática (DR) específica, numa determinada fase da sua evolução, num contexto clinico muito específico. Poderíamos de uma forma esquemática dizer que a ocorrência de uma anemia no contexto de uma DR poderá ter um papel de:

  1. diagnóstico
    • de doença reumática
    • de uma doença concomitante

2.  a atividade da doença

3. detectar uma complicação

    • da doença reumática
    • da medicação

Nas fases de diagnóstico inicial de uma doença reumática, a anemia surge sobretudo associada às doenças reumáticas inflamatórias sistémicas, e assume o valor de marcador de atividade inflamatória sistémica, em paralelo com os outros parâmetros inflamatórios sistémicos. É em regra uma anemia NN, com mais ou menos pronunciada elevação da ferritina. Assume particular relevância no diagnóstico da Polimialgia Reumática (PMR), e pode ser particularmente grave no contexto dos casos de vasculites sistémicas. Nestas doenças, para lá de poder ser um factor de fundamentação diagnóstica, a anemia é um verdadeiro parâmetro de monitorização da evolução da doença e da resposta às intervenções terapêuticas. Uma anemia que surge no decurso da evolução de uma DR poderá sempre corresponder a uma situação concomitante sem relação direta com a doença reumática, ou corresponder a uma complicação associada à doença. No primeiro caso poderemos identicar um hipotiroidismo (anemia macrocítica), ou uma gamapatia monoclonal (em regra de signicado indeterminado) (GMUS), mas o mais frequente neste contexto é corresponder a uma forma de manifestação de uma complicação da doença, decorrente do envolvimento de outros órgãos e sistemas, preferencialmente o sistema hematopoiético (seja por uma mielodisplasia ou pelo desenvolvimento de uma doença linfoproliferativa) ou o sistema gastro-intestinal ou renal. Porém, o mais clássico, e provavelmente mais frequente, é a anemia ser consequência das terapêuticas instituídas para o seu tratamento. Fundamentalmente derivadas de 2 grupos de fármacos:

  • imunomoduladores
  • AINES.

Os primeiros, incluindo os clássicos DMARDs (drogas modicadoras da doença reumática) e os mais recentes fármacos biotecnológicos, induzindo anemia sobretudo pela interferência com a mielopoiese (por múltiplos mecanismos) e por isso frequentemente associando-se a outras citopénias. Neste caso a anemia pode assumir distintas formas de apresentação, podendo estabelecer-se de forma muito insidiosa e gradual. Um marcador fundamental a monitorizar é o VGM, sendo a sua elevação progressiva um sinal obrigatório de alerta para uma situação de alteração na hematopoiese. No segundo caso, os AINEs, a anemia deve-se preferencialmente a uma toxicidade gastrointestinal (GI), mais marcada e evidente a nível do trato GI alto (estômago e duodeno), mas cada vez mais prevalente por um envolvimento insidioso e lento do trato GI baixo (sobretudo intestino delgado). O aparecimento de novas e muito eficazes estratégias de minimização do risco dos AINEs (sobretudo pela associação de IBP a doentes avaliados como de risco para a ocorrência desta toxicidade), e o aparecimento de uma nova classe de AINEs, os coxibes, veio reduzir de forma radical os eventos hemorrágicos GI agudos, e transformar numa raridade a anemia aguda com estes associada. Pelo contrário, é mais prevalente a ocorrência de uma anemia ferropénica de instalação gradual e progressiva (sobretudo decorrente do uso de alguns AINEs clássicos), devida a uma toxicidade de baixa magnitude mas de expressão extensa, sobretudo a nível da mucosa do intestino delgado. Nestes casos é fundamental a repetição regular do hemograma e a vigilância de reduções lentas mas graduais, que nos poderão por na pista destas situações.

X