SÁBADO, 24 NOVEMBRO

Mesa Redonda – Anemia e Medicina do Trabalho

Radiações Ionizantes e Anemia

18:00 – 18:30

Moderadores

Manuel Oliveira e Rocha Nogueira

Palestrante

Marta Oliveira Padilha

O Homem está exposto a radiação proveniente de fontes naturais e de fontes articiais. As fontes naturais são os raios cósmicos, que na sua maioria são filtrados pela atmosfera mas, em locais de grande altitude ou em voos comerciais, a exposição pode ser considerável, ao contrário do que sucede ao nível do mar. Também existem pequenas quantidades de urânio e outros elementos radioativos na crosta terrestre e que contribuem para a exposição da totalidade da população. A fonte articial de radiação, a radiação ionizante, pela sua elevada energia, é capaz de penetrar na matéria, ionizar os átomos, romper ligações químicas e causar danos nos tecidos biológicos. Os efeitos da radiação no corpo humano são complexos e dependem do tipo de radiação, da intensidade e da energia. No entanto, o uso de radiação ionizante tem inúmeras aplicações que apresentam largos benefícios para a sociedade e para os indivíduos, por exemplo para fins terapêuticos (radioterapia e medicina nuclear). Quando expostas à radiação ionizante, as células podem sofrer danos biológicos devido à ação física e/ou química dessa radiação nos átomos que formam as células. Ao ocasionar a ionização e excitação dos átomos esta radiação afeta as moléculas podendo levar à rutura de ligações moleculares na cadeia de ADN (efeito direto) e à formação de radicais livres que vão reagir quimicamente (efeito indireto) podendo causar danos às células, aos tecidos e aos órgãos, assim como afetar o funcionamento do corpo inteiro. Os efeitos da radiação ionizante na saúde humana dividem-se em efeitos determinísticos e efeitos estocásticos. As preocupações relativas aos efeitos adversos para a saúde humana por exposição prossional à radiação ionizante levaram a que ao longo dos anos fossem estabelecidas medidas adequadas para assegurar uma proteção eficaz dos trabalhadores neste âmbito. Neste sentido, de acordo com a Lei n.º 102/2009, de 10 de setembro e suas alterações (introduzidas pela Lei n.º 42/2012, de 28 de agosto, pela Lei n.º 3/2014, de 28 de janeiro, pelo Decreto-Lei n.º 88/2015, de 28 de maio, e pela Lei n.º 146/2015, de 9 de setembro), as “atividades que impliquem a exposição a radiações ionizantes” são consideradas de “risco elevado” e “suscetíveis de implicar riscos para o património genético” dado que podem “causar efeitos genéticos hereditários, efeitos prejudiciais não hereditários na progenitura ou atentar contra as funções e capacidades reprodutoras masculinas ou femininas”. A mesma Lei determina ainda que cabe à entidade empregadora e, consequentemente, ao respetivo Serviço de Saúde e Segurança do Trabalho/Serviço de Saúde Ocupacional (SST/SO), assegurar uma proteção eficaz dos trabalhadores expostos a fatores de risco profissional, como a radiação ionizante, de forma a reduzir até ao nível mais baixo possível a exposição profissional e assim garantir a saúde, segurança e bem-estar dos trabalhadores expostos. De referir, que os trabalhadores expostos a radiações ionizantes no seu local de trabalho devem ser considerados uma população de risco, relativamente à qual é fundamental prestar especial atenção quanto à avaliação e gestão deste risco profissional, o que exige uma rigorosa vigilância da saúde com alguma especicidade. Na interação da radiação ionizante com a matéria podem ocorrer diferentes resultados: A radiação ionizante pode atravessar a matéria sem sofrer interação com a mesma e sem causar danos; A radiação ionizante pode danificar a célula, mas esta é reparada adequadamente pelo organismo; A radiação ionizante pode matar a célula ou impedir que esta se reproduza, mas sem provocar danos aos tecidos; contudo, quando o número de células afetadas pela radiação ionizante é sucientemente grande, o funcionamento do tecido/órgão irradiado poderá ficar comprometido (efeitos determinísticos); A radiação ionizante desencadeia uma modicação do material genético da célula irradiada que poderá conduzir a aberrações, rearranjos ou mutações celulares (efeitos estocásticos). Um dos principais efeitos determinísticos é redução da ecácia do processo formador de sangue, levando a uma diminuição do número de células do sangue que além de ser um dano causado pela radiação também varia de acordo com a suscetibilidade individual e a capacidade de reparação celular: se pessoas de diferentes graus de suscetibilidade são expostas à radiação, o limite de dose de um dado tecido, para efeitos determinísticos de gravidade suficiente para ser observável será atingido em doses mais baixas nos indivíduos mais sensíveis; com o aumento da dose, mais pessoas vão sofrer o efeito observável, até uma dose acima do qual todo o grupo mostra o efeito. Um dos efeitos determinísticos é a “Síndrome de Radiação Aguda” (ARS – Acute Radiation Sickness) resultante da exposição aguda de corpo inteiro a radiação ionizante externa muito penetrante ou a contaminação brutal, tanto externa como interna. Esta Síndrome representa a expressão clínica da lesão de órgãos importantes, em especial daqueles em que as células estão sujeitas a uma contínua e rápida renovação, como sejam o sistema hematopoiético e o gastrointestinal. O intervalo de tempo que decorre entre a exposição e o início de sintomas pode dar indicações da dose absorvida e do dano provocado pela radiação. As alterações no sangue periférico, decorrentes de uma lesão no sistema hematopoiético, podem ocorrer muito rapidamente após um acidente. Por exemplo, uma descida na contagem de linfócitos para menos de 1000 células por mm3 em 24 h é indicativo de uma lesão muito grave pela radiação. Quando a dose é suficientemente elevada, pode ocorrer a morte devido à grave depleção de células e à inflamação de um ou mais órgãos vitais do corpo (sistema hematopoiético, trato gastrointestinal e sistema nervoso central, em ordem decrescente de sensibilidade). Para certas alterações celulares não há dose limite, como nas alterações hereditárias e alguns efeitos somáticos, mas para outros efeitos, como diminuição das células da medula óssea existe um limiar de dose. Os efeitos somáticos variam conforme a sensibilidade do tecido. Assim, alguns tecidos como o dos órgãos hematopoiéticos são muito sensíveis á radiação. As células dos órgãos hematopoiéticos como medula óssea e gânglios linfáticos, também são muito sensíveis. Sob a acção da radiação ionizante, estas células podem sofrer alterações estruturais, não conseguindo sobreviver, desaparecem ou podem sofrer alterações que não permitem sua multiplicação e maturação ou a fazem de modo anormal. No primeiro caso há destruição celular e consequente diminuição do número de células na medula, que pode ser temporária ou definitiva, seguida por diminuição das células sanguíneas periféricas com anemia, granulocitopenia e trombocitopénia (Jandl, 1999). As séries granulocíticas, eritróide e megacariócitica, apresentam-se diminuídas, dando ao conjunto medular um grau de hipocelularidade ou hipoplasia variável, na dependência da dose de radiação e do grau de comprometimento celular. Se a irradiação for elevada, pode haver aplasia total medular, situação incompatível com a vida. O quadro clínico dos pacientes atingidos pela radiação ionizante, quer de modo acidental, terapêutico ou durante a jornada de trabalho, e que sofreram alterações hematológicas por lesão das células sanguíneas é variado, podendo ser considerado separadamente quando nas irradiações agudas ou crónicas. É por isso essencial que os trabalhadores realizem exames de saúde apropriados antes da exposição prossional a radiação ionizante e posteriormente tenham um adequado e contínuo acompanhamento do seu estado de saúde.

X