SEXTA-FEIRA, 25 NOVEMBRO

Conferência

Anemia em números: dados da vida real

14:15 – 15:00

Moderadores

António Robalo Nunes e Manuel Muñoz

Palestrante

Cândida Fonseca

O estudo EMPIRE – prevalência da anemia e da ferropénia na população portuguesa-, um estudo epidemiológico implementado pelo AWG-P em Portugal continental mostrou que a anemia, ferropénica em cerca de metade dos casos, é um problema de saúde pública na população portuguesa adulta, cuja prevalência (20,4%) superou a estimativa da OMS para Portugal (15%).

É hoje consensual que os dados epidemiológicos bem como dos grandes estudos aleatorizados, devem ser corroborados por dados observacionais da vida real.

Assim, propomo-nos apresentar os dados obtidos em 91 rastreios efetuados em Portugal Continental entre 2013 e 2016, em diferentes contextos, na sua maioria locais públicos e instituições de saúde. Dos 8195 indivíduos avaliados, com idade média de 46,85 anos (DP: 16,34), 73,8% eram do sexo feminino. Das 6052 mulheres rastreadas, 566 estavam grávidas. A todos os voluntários avaliámos, por metodologia point-of-care a hemoglobina e a ferritina, como indicador das reservas de ferro no organismo.

Da análise dos dados verificamos que nesta amostra extensa de homens e mulheres não grávidas, as mulheres apresentam prevalência mais elevada de anemia (21,97% vs. 13,58%) bem como ferropénia mais grave que os homens (mediana 16,8 vs. 49,14 ng/dl). Mais de metade das mulheres que se submeteram ao rastreio apresentava ferritina inferior a 30 ng/dl. (vs. cerca de 1/3 dos homens). A maioria dos indivíduos com ferropénia não apresentava anemia, ainda que a percentagem de indivíduos anémicos cresça à medida que os valores de ferritina diminuem. Verificou-se uma associação significativa entre os níveis baixos de Hb e de ferritina e as queixas de cansaço.

Verificaram-se ainda diferenças significativas entre a mediana da Hb e da ferritina das mulheres, antes e após os 52 anos de idade, sendo ambas as variáveis significativamente mais baixas antes dos 52 anos, em provável relação com período fértil.

Comparámos as variáveis Hb e ferritina sérica das mulheres grávidas, nos diferentes trimestres da gravidez, com as de uma população cross-match de mulheres não grávidas, com idades semelhantes. A Hb diminui à medida que a gravidez avança e, no 2º e 3º trimestres de gravidez, é significativamente mais baixa que a das mulheres não grávidas, do mesmo escalão etário, apesar dos suplementos de ferro ingeridos no decurso da gravidez. Também a ferropénia é significativamente mais grave no 2º e 3º trimestre de gravidez do que nas mulheres não grávidas, do mesmo escalão etário. Mais de 30% das grávidas no 2º trimestre e cerca de 15% daquelas que estavam no 3º trimestre de gravidez não estavam a fazer suplementação com ferro.

Analisamos estes resultados à luz das normas de orientação da DGS nestas áreas e dos riscos da carência de ferro durante a gravidez, para a mãe e para o bébé.

Ainda que com todos os enviesamentos que sabemos que os rastreios comportam, estes dados da vida real parecem corroborar a elevada incidência de anemia e ferropénia na população portuguesa adulta, com especial destaque para as mulheres jovens e as grávidas. São sem dúvida úteis para a nossa prática clínica diária e abrem janelas de oportunidade para mais investigação nesta área.

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