SÁBADO, 29 NOVEMBRO

Mesa Redonda: Anemia na criança e no adolescente

Carências de ferro e minerais na adolescência e no desporto

17:30 – 18:00

Moderadores

Jorge Amil e Lino Rosado

Palestrante

Carla Rêgo

Os minerais representam um grupo de substâncias inorgânicas encontradas numa grande variedade de alimentos. O corpo humano necessita de cerca de 20 minerais diferentes, de forma a garantir a adequação de uma variedade de processos fisiológicos e metabólicos. Tratando-se da idade pediátrica, a sua adequação, antes de mais, deve ser salvaguardada de forma a garantir o adequado processo de crescimento e maturação biológica. Importa referir a sua importância na contracção muscular, na frequência cardíaca, na condução neuronal, no transporte de oxigénio, na fosforilação oxidativa, na activação enzimática, na actividade antioxidante, na saúde óssea, no equilíbrio acido-base e em várias funções imunitárias entre outras. Porque a maioria destes processos são altamente solicitados durante o exercício, torna-se fundamental um adequado status mineral de forma a garantir, não apenas a optimização da aptidão individual, mas também a capacidade de recuperação, bem como a redução do risco de lesões. Os 2 grandes grupos de minerais são os macro- e os microminerais. O ferro e o cálcio são os minerais que apresentam mais frequentemente um compromisso na ingesta alimentar durante a infância e a adolescência, não apenas em atletas mas também na população em geral. A prática regular de exercício físico, com fins de lazer e independentemente da idade, está associada a um aumento das necessidades energéticas apenas na dependência do incremento do gasto inerente ao exercício. Assim, relativamente à criança/adolescente que pratica uma ou duas modalidades desportivas num âmbito recreativo e de promoção de saúde, apenas se deverá ter em atenção o ajuste do aporte energético total, privilegiando uma dieta variada e equilibrada. Desta forma se garantirá a oferta adequada de todas as vitaminas e minerais necessários ao crescimento, maturação e exercício físico. A monitorização do estado de nutrição, a vigilância do crescimento e a progressão da puberdade devem fazer parte do exame médico de rotina preconizado, pelo menos, anualmente. A prática de exercício com fins competitivos implica adaptações neuro-endócrinas e induz respostas cardiovasculares e metabólicas, entre outras. As características do exercício, nomeadamente a sua intensidade, frequência, volume e tipo de metabolismo muscular predominante (aeróbio/anaeróbio), bem como as exigências no que respeita ao peso corporal, são determinantes das repercussões no crescimento/maturação e no estado nutricional e, consequentemente, dos riscos carenciais major (em macronutrientes) ou marginais (em micronutrientes). A carência em ferro, com ou sem anemia, é também no desporto, tal como na idade pediátrica em geral, a situação carencial mais frequentemente observada, particularmente em atletas masculinos durante o pico de aceleração pubertário e em atletas femininas na fase intermédia da adolescência e na dependência da perda menstrual, estando em ambos os casos sistematicamente associada a deficits de ingesta. A suplementação em ferro melhora as reservas de ferro orgânicas (níveis de ferritina), mas o aumento da ferritina na ausência de um aumento da concentração de hemoglobina não está associada a melhoria da performance e da resistência; valores de ferritina baixos com valores de hemoglobina no limite inferior do normal serão indicação para suplementação em ferro em atletas, para além de um adequado aconselhamento alimentar. A carência em cálcio, com consequente compromisso da massa óssea para a idade, é actualmente um achado tão frequente em atletas como na população adolescente em geral, mesmo quando se consideram modalidades desportivas que implicam baixo peso corporal tais como a ginástica ou a patinagem. Efectivamente, a literatura e a nossa experiencia documentam que, uma adequada vigilância da saúde acrescida das vantagens do impacto no solo sobre a formação da massa óssea, igualam o risco desta componente da triada da atleta feminina entre as atelas e as adolescentes não atletas. Importa no entanto referir que, modalidades de elevada intensidade, com treinos bidiários frequentes e sem uso de peso corporal, tais como a natação, poderão, essas sim, apresentar um risco de compromisso de massa óssea, não na dependência da baixa ingesta de cálcio mas da elevada perda renal e intestinal deste mineral. A vigilância da saúde óssea na adolescente deve ser redobrada em atletas de competição, de ambos os sexos, particularmente nestes dois tipos de modalidades. As novas recomendações relativamente à suplementação em vitamina D e a quantificação de uma adequada ingesta de cálcio na dieta serão outros 2 aspectos que devem ser monitorizados. No que respeita ao magnésio (componente de mais de 300 enzimas e directamente envolvido na regulação da contracção muscular, na libertação de oxigénio e na síntese proteica) e ao zinco (mineral que desempenha importantes funções na produção de energia muscular e síntese proteica), não é espectável a existência de carências nutricionais em atletas saudáveis e, meta-análises sobre a suplementação em humanos, não demonstram evidência robusta acerca de vantagens na performance, quer em modalidades aeróbicas, anaeróbicas ou de treino de força. Já no que reporta ao cromio, um co-factor da insulina e ao qual se atribui algum ergogénico (consequente à acção anabólica insulino-dependente) bem como de redução de massa gorda, também não é espectável a existência de situações de deficit em crianças / adolescentes saudáveis, bem como a sua suplementação não esta associada a uma melhoria da performance em atletas bem treinados. Relativamente a outros minerais como o bório (possível efeito anabólico na dependência da potenciação dos efeitos da insulina ou da testosterona) e o selénio, não existem situações de carência documentadas em crianças/adolescentes atletas saudáveis, nem estudos robustos que documentem o efeito da sua suplementação no exercício físico, nomeadamente visando uma melhoria da aptidão. Como conclusão importa reter   que: 1) a oferta de vitaminas e minerais deve ser suportada por uma dieta equilibrada e variada, ajustada às características da prática desportiva e à fase de crescimento/ maturação de cada atleta; 2) são raras as situações deficitárias em minerais em adolescentes saudáveis que cumpram o requisito anterior, independentemente de serem ou não atletas; 3) os deficits em ferro (com ou sem anemia) e em cálcio, são as situações mais comuns em atletas, tal como na população adolescente em geral; 4) é inquestionável que uma situação deficitária em algum mineral pode comprometer a performance. Em caso de comprovado deficit deverá ser efectuada suplementação; 5) não é clara a associação entre suplementação da maioria dos minerais e um comprovado efeito ergogénico ou de melhoria da performance; 6) muito embora a maioria da suplementação mineral seja segura nas dosagens recomendadas, a sua biodisponibilidade é questionável, as interacções são por vezes desconhecidas e existe um risco não desprezível de ser ultrapassado o limite de segurança (Upper Load) para alguns minerais, com consequente toxicidade, pelo que não deve ser levianamente efectuada nem aconselhada.

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