SÁBADO, 29 NOVEMBRO

Mesa Redonda: Anemia no adulto e no idoso

Anemia na Insuficiência cardíaca: uma ligação perigosa

15:30 – 16:00

Moderadores

Gorjão Clara e Letícia Ribeiro

Palestrante

Susana Martins

A anemia é uma das comorbilidades mais prevalentes na insuficiência cardíaca (IC). A anemia está associada a um aumento da morbi-mortalidade na IC e é um dos principais factores independentes de risco para morte de todas as causas. A etiologia da anemia na IC é complexa e multifactorial: 1) má nutrição; 2) insuficiência renal causando baixos níveis de eritropoetina; 3) depressão e resistência à eritropoetina medulares causadas pelos elevados níveis séricos de factor de necrose tumoral alfa, de interleucinas mas também pela terapêutica com inibidores da enzima de conversão da angiotensina; 4) perdas gastrointestinais relacionadas com terapêutica antiagregante (o ácido acetil-salicílico, p.e.) e/ou hipocoagulante (varfarina, p.e.); 5) inibição da libertação de ferro pelo sistema retículo-endotelial pela deplecção dos níveis de hepcidina; 6) perda urinária de eritropoetina, ferro e transferrina associadas à presença de proteinúria; 7) e hemodiluição secundária ao aumento do volume plasmático. Destas etiologias, a anemia ferropénica é das formas mais prevalentes no doente com IC, sendo classificada como absoluta ou funcional de acordo com o perfil sideremico. No entanto, as principais dúvidas residem em saber se a anemia é causa ou consequência das formas mais avançadas de IC. Nos últimos anos, vários estudos têm demonstrado que a correcção da anemia melhora as funções cardíaca e renal, aumenta a capacidade funcional, diminui os níveis plasmáticos de peptídeos natriuréticos, permite reduzir as doses de diuréticos destes doentes. No entanto, apenas duas estratégias terapêuticas têm vindo a ser utilizadas no tratamento da anemia: 1) administração de eritropoetina subcutânea e/ou de 2) ferro endovenoso ou oral. Diversos pequenos estudos com rh-EPO ou darbepoetina alfa mostraram melhoria no consumo de oxigénio e da capacidade funcional, diminuição dos níveis dos péptidos natriuréicos e melhoria dos indicadores de qualidade de vida. No entanto o estudo RED-HF que aleatorizou 2278 doentes com anemia e IC por disfuncção sistólica do ventrículo esquerdo para o tratamento com darbepoetina, não demonstrou benefício na melhoria do prognóstico destes doentes evidenciando em contrapartida o aumento significativo de eventos tromboembólicos. A contrastar com os desanimadores resultados do uso de estimuladores da eritropoiese, têm estado os resultados descritos no uso de ferro endovenoso em doentes com IC e deficiência de ferro, independentemente da presença de anemia. Em particular, o estudo FAIR-HF, de maior dimensão, demonstrou a melhoria significativa dos indicadores de qualidade de vida e da classe funcional dos doentes tratados com carboximaltose férrica. Estas melhorias não tiveram, no entanto, impacto no prognóstico, apesar de se ter observado uma tendência para a redução do número de hospitalizações. Estes resultados contribuíram para a recente inclusão nas Recomendações Europeias do uso da terapêutica com carboximaltose férrica em doentes com deficiência em ferro.

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